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A inflação caiu, os juros também poderiam cair, mas o mercado aposta que a Selic fica em 15%

 

Os juros já poderiam cair neste mês de janeiro, mas a aposta geral no mercado é que o Copom deve manter os juros em 15% na primeira reunião do ano, na quarta-feira. O corte neste ciclo poderia começar agora, nesta reunião, já que a inflação caiu no período, ainda que não esteja no centro da meta de 3%, como é o mandato do Banco Central. O IPCA fechou o ano de 2025 em 4,26%, não é tão distante assim, principalmente porque a tendência não é ascendente.

Um fator que pode derrubar um pouco mais é essa queda do dólar. A redução vem como consequência da saída de dólares dos Estados Unidos, em meio à política errática e confusa do presidente Donald Trump, em busca de outros mercados. Investidores que estavam em títulos do Tesouro americano têm migrado para outras aplicações. Vários países estão recebendo esses recursos, o Brasil também. Entrou muito capital estrangeiro na Bolsa. A Bolsa subiu e o câmbio recuou. Essa queda é positiva.

A política anti-inflacionária do BC funcionou. Caíram as taxas de inflação e a taxa de juros permaneceu a mesma, o que significa na prática alta dos juros reais. O Banco Central está fixado na missão de levar a inflação para a meta. Já conversei com integrantes da diretoria, e eles relatam o incômodo dessa diretoria ainda não ter entregue a inflação na meta. Ou seja, eles querem o 3%.

A questão é a discussão fiscal. Os economistas do mercado dizem que o governo ampliou muito os gastos. Mas o fato é que o déficit público tem caído. Mesmo se incluir tudo aquilo que tiram para efeito do arcabouço, tem caído em relação a governos anteriores, de Bolsonaro e Temer

O mercado não reconhece essa queda. Mas, de fato, ocorreu. O ponto em que os economistas têm razão é que um déficit deste tamanho exigiria superávit fiscal. Outro ponto é que quando o governo Lula retomou os aumentos reais no salário mínimo deveria ter desvinculado o salário das despesas previdenciárias, porque esse item, o maior bloco de despesas, tem subido muito exatamente pelos reajustes reais do Mínimo.

Perguntei para o ministro Fernando Haddad por que eles não tinham feito a desvinculação. Ele respondeu: “Alguém desvinculou? Algum outro governo desvinculou?” Eu falei: “Não, ninguém, mas outros governos não aumentaram o salário mínimo de forma real exatamente porque o salário mínimo é o indexador das outras despesas, que são as maiores do orçamento”.

A discussão fiscal é complexa. A realidade não é como o mercado pinta, que o governo é gastador, aumentou o déficit e que, por isso, está provocando inflação. E também não é tão bom quanto o governo diz. Então, talvez a verdade esteja no meio dessa discussão sobre as contas públicas.

O Globo, 26/01/2026